IA aplicada às vendas, agentes que tratam encomendas, CRM e personalização, identidade digital, faturação, logística e dados. O EVOLVE 2026 reuniu no Porto 18 casos de transformação digital e duas startups. Mais do que a tecnologia em si, vários exemplos mostraram o que acontece quando esta começa efetivamente a entrar nos processos das empresas.

IA que começa a entrar no processo de venda

Um dos exemplos com impacto mais facilmente traduzível para negócio foi apresentado pela NOS.

O Sales Assistant B2B apoia cerca de 80 consultores comerciais e reúne informação interna e externa sobre clientes, prospects, produtos e oportunidades. Em vez de funcionar apenas como uma ferramenta de pesquisa ou conversação, o sistema pode propor ações ao comercial e disponibilizar o contexto utilizado para chegar a essas recomendações.

Segundo os dados apresentados no EVOLVE, a utilização da solução está associada a um aumento de 2% a 3% nas vendas face ao grupo de controlo e a uma melhoria próxima dos 20% na geração de reuniões e propostas. A aplicação regista atualmente entre quatro e cinco mil interações mensais.

A evolução prevista passa por tornar a ferramenta mais proativa e aumentar a automatização. Ou seja, passar gradualmente de uma IA à qual se pede informação para uma IA capaz de identificar oportunidades e iniciar parte do processo.

Quando uma encomenda começa num email

A Engibots levou ao EVOLVE um dos exemplos mais próximos da operação diária de muitas organizações B2B.

A tecnologia combina modelos de linguagem, agentes de IA e automação para interpretar pedidos de orçamento e encomendas que chegam por email, extrair a informação necessária e integrá-la nos sistemas empresariais. Em determinados cenários, o processo pode chegar ao registo da encomenda no ERP.

Existe, contudo, um mecanismo importante de controlo: cada decisão é acompanhada por um nível de confiança. Quando esse nível não é considerado suficiente, o processo é encaminhado para uma pessoa. O caso desloca a conversa sobre inteligência artificial para lá do chatbot.

Em muitas empresas, uma parte significativa do negócio continua a chegar através de canais pouco estruturados, emails, documentos anexos ou contactos comerciais, e não através de formulários, catálogos ou processos totalmente normalizados. Transformar essa informação num fluxo capaz de comunicar com produto, preço, stock, faturação ou ERP é uma aplicação bastante concreta de IA à operação.

Ter muitos dados não é conhecer o cliente

O FC Porto, em conjunto com a Deloitte, está a desenvolver uma nova infraestrutura de CRM e marketing baseada em Salesforce Data Cloud e Marketing Cloud.

CRM, site, loja, aplicações, campanhas, programas de fidelização ou apoio ao cliente podem gerar enormes quantidades de informação sem que isso produza necessariamente uma melhor relação com o consumidor. O objetivo passa por agregar informação anteriormente dispersa, construir uma visão mais integrada de sócios e adeptos e, a partir daí, melhorar segmentação, personalização e automatização das comunicações.

Um dos números mais interessantes, porém, apareceu antes da implementação. Foram identificadas 43 jornadas possíveis. Apenas sete foram escolhidas para avançar numa primeira fase. A seleção obrigou primeiro a responder a questões menos tecnológicas: que informação existe, que objetivo se pretende alcançar e que experiência deve ser proporcionada.

Identidade digital: reduzir fricção sem reduzir confiança

A SIBS Multicert e o Banco Best apresentaram uma transformação central numa economia cada vez mais digital.

O processo de onboarding bancário foi sendo desenvolvido para permitir identificação e contratação remotas, juntando assinatura eletrónica e tecnologias como biometria facial, OCR e NFC. Atualmente, segundo o caso apresentado, todos os processos de onboarding do Banco Best recorrem a estes mecanismos. O ponto de partida é bancário, mas a questão é transversal.

Quanto mais processos passam para o digital, maior é a necessidade de conseguir confirmar identidades e validar informação sem transformar segurança numa sucessão de barreiras para o utilizador. Marketplaces, subscrições, serviços financeiros, aluguer, crédito ou outros negócios digitais enfrentam versões diferentes do mesmo problema.

A transformação também acontece depois da venda

A Sovos e o Crédito Agrícola trouxeram ao palco uma área subjacente à montra digital: a faturação.

O projeto integra receção de faturas de fornecedores, emissão e envio de documentação para clientes, assinatura digital, EDI e comunicação com a Autoridade Tributária. Um tema preponderante de customer experience e de inteligência artificial, onde é precisamente neste tipo de processos que a transformação digital ganha escala.

Na prática, quando vendas, ERP, fornecedores, documentação e obrigações fiscais vivem em sistemas separados, o crescimento aumenta também a complexidade administrativa. Para os responsáveis, automatizar estas ligações reduz significativamente o trabalho manual, a duplicação e o risco de erro.

Logística: o valor aparece quando os dados chegam a tempo

A Atlantic Cargo e a Vodafone partiram de uma operação ainda muito dependente de papel.

O projeto começou com sete veículos e evoluiu para uma plataforma que agrega informação sobre motoristas, viaturas, stocks, faturação, planeamento e outros elementos operacionais. Segundo os responsáveis, a adesão dos motoristas passou de cerca de 5% para a totalidade num período aproximado de três meses.

Foi também criado um portal para clientes e a empresa passou a conseguir disponibilizar informação operacional mais rapidamente. Digitalizar uma operação não significa substituir papel por um ecrã. O ganho acontece quando a informação passa a estar disponível a tempo de permitir corrigir uma rota, antecipar um problema ou responder melhor ao cliente.

Sogrape: a IA veio depois dos dados

Entre os casos apresentados, a transformação da Sogrape com a Google deixou uma das sequências mais interessantes.

A empresa começou por consolidar informação proveniente de diferentes sistemas através de uma estratégia de dados suportada em Google Cloud. Seguiram-se a digitalização de processos e, numa fase posterior, uma adoção mais estruturada de inteligência artificial.

Os indicadores apresentados dão dimensão ao projeto: mais de 20 mil acessos mensais à plataforma de informação, mais de 250 pessoas capacitadas, mais de três mil horas anuais libertadas às equipas e uma redução próxima dos 80% no time-to-market de novas soluções através do Sogrape AI Studio.

Digitalizar o comércio implica conhecer o território

Também o comércio físico entrou no programa através de Porto Digital e Indra/Minsait, com os projetos Bombarda Digital e Baixa Digital.

Os dois territórios partiram de características diferentes e receberam, por isso, respostas distintas. Na Bombarda, foram desenvolvidos portal e aplicação, experiências de realidade aumentada e ferramentas de recolha e análise de fluxos de pessoas e veículos. Na Baixa, as soluções incluem um CRM orientado à relação com comerciantes, um programa de fidelização digital e um dashboard com informação urbana e económica.

Um dos pontos relevantes do projeto foi precisamente evitar a aplicação de uma solução única a duas zonas comerciais diferentes. A tecnologia foi antecedida por um processo de auscultação do território e dos comerciantes. A fase seguinte será, contudo, determinante para perceber quantos comerciantes e consumidores utilizam efetivamente estas ferramentas e se essa utilização se traduz em mais recorrência, tráfego, fidelização ou atividade económica.

Rever o EVOLVE 2026

A APDC disponibilizou os vídeos das apresentações e a reportagem fotográfica do evento.

Vídeos do EVOLVE 2026
Reportagem fotográfica do EVOLVE 2026


Fotografias: Escalar Digital