Um estudo recente da Nova SBE, «Estado da Inteligência Artificial em Portugal 2025», estima que apenas cerca de 8% das empresas portuguesas usam IA com intensidade suficiente para gerar ganhos reais de eficiência. O entusiasmo, esse, é quase unânime: mais de 98% dos profissionais acreditam no seu potencial. Entre a crença e o resultado abre-se uma distância que habitualmente se atribui à falta de tecnologia ou de competências.

Para Fernando Félix, fundador da Webcomum - empresa portuguesa de transformação digital para vários setores, nomeadamente a indústria e o comércio B2B - o obstáculo está a montante da própria IA, na informação que a alimenta. E em poucos lugares isso é tão evidente como no comércio eletrónico, onde a informação de produto — dispersa por ERP, loja online, folhas de cálculo e marketplaces — se torna o verdadeiro travão ao crescimento.

Nesta primeira parte, o fundador da Webcomum explica o que muda quando a informação passa a ser tratada de problema a ativo estratégico.

O estudo aponta que só cerca de 8% das empresas portuguesas usam IA com intensidade suficiente para ganhos de eficiência. Onde identificam o principal bloqueio — tecnologia, competências, ou a forma como a informação está organizada?

A tecnologia é, provavelmente, a parte mais fácil de resolver. As ferramentas já existem, estão cada vez mais acessíveis e, em muitos casos, podem ser testadas sem grande investimento. O bloqueio está na combinação de três fatores: informação desorganizada, processos pouco claros e falta de competências para integrar a IA no trabalho diário.

Encontramos com frequência empresas com ERP, CRM, plataformas de e-commerce e várias ferramentas de marketing, mas sem uma visão consistente da informação. Os dados existem, só que estão dispersos, duplicados ou dependentes do conhecimento de determinadas pessoas. Quando se coloca IA sobre esta realidade, não se resolve o problema: apenas se processa mais depressa a mesma desorganização. Antes de escolher uma ferramenta, é preciso perceber que informação existe, onde está, quem é responsável por ela e como pode ser usada nos processos.

"Em muitos casos, propomos um PIM. Sem essa base, a internacionalização deixa de ser escalável e transforma-se numa sucessão de tarefas manuais."

O que muda para Fernando Félix, quando a informação passa a ser tratada de problema a ativo estratégico

Como se traduz, em concreto, esse problema numa empresa que vende online?

Numa empresa de e-commerce, começa quase sempre na informação de produto. Designações, categorias, descrições, características técnicas, fotografias, documentos, traduções e preços podem estar repartidos entre o ERP, a loja, folhas de cálculo, PDFs, emails e pastas partilhadas. E não é só a dispersão. É existirem versões diferentes da mesma verdade: o ERP tem uma descrição, o site apresenta outra, o marketplace exige atributos diferentes e a equipa comercial usa ainda outra folha de cálculo. Para a IA funcionar com confiança, precisa de contexto, estrutura e regras — saber qual é a fonte oficial, que informação pode utilizar, como relacionar dados e com que frequência são atualizados.

Muitas marcas evoluíram no e-commerce, no ERP, no CRM, mas mantêm a informação de produto em processos manuais. Qual é o impacto dessa «dispersão» quando querem escalar vendas online, entrar em marketplaces ou internacionalizar-se?

O impacto aparece logo no tempo, no custo e na qualidade da operação. Acrescentar cem produtos a uma loja é simples. Distribuir milhares por vários mercados, idiomas e canais é outra realidade — cada marketplace tem regras próprias, atributos obrigatórios, taxonomias e formatos de integração.

Quando a informação depende de folhas de cálculo e trabalho manual, cada novo canal multiplica o esforço: surgem descrições inconsistentes, preços desatualizados, erros de stock, traduções incompletas, produtos rejeitados. A empresa cresce em vendas, mas também em complexidade e custo. E informação de produto incompleta prejudica a pesquisa, o SEO e a conversão, e aumenta as devoluções, porque o cliente não decide bem ou compra algo que não corresponde ao que esperava.

É por isso que, em muitos casos, propomos um PIM (Product Information Management): uma base de informação única e estruturada onde todos os intervenientes na vida do produto acedem, inserem e atualizam dados. Sem essa base, a internacionalização deixa de ser escalável e transforma-se numa sucessão de tarefas manuais.

"A oportunidade não nasce da acumulação de dados, mas da capacidade de os transformar em decisões e ações comerciais concretas."

Fernando Félix, sobre como gerar novas oportunidades de negócio

“A informação deixou de ser um suporte administrativo para passar a ser um ativo estratégico.” Como se estão a gerar novas oportunidades de negócio, para fornecedores e para empresas de e-commerce?

Quando a informação está organizada, deixa de servir apenas para manter um catálogo ou emitir uma fatura. Passa a permitir identificar padrões, antecipar necessidades e criar serviços. Um fabricante pode disponibilizar aos distribuidores informação técnica estruturada, conteúdos comerciais, traduções e dados de disponibilidade através de portais ou integrações automáticas — facilita a venda dos seus produtos e reforça a relação com a rede.

Uma empresa de e-commerce, ao cruzar informação de produto com pesquisas, vendas, devoluções e pedidos de suporte, descobre produtos que os clientes procuram e não encontram, oportunidades de venda cruzada, novos segmentos ou mercados. A oportunidade não nasce da acumulação de dados, mas da capacidade de os transformar em decisões e ações comerciais concretas.


A segunda parte desta entrevista faz parte da primeira edição da newsletter Escalar Digital: a fronteira entre o trabalho de uma agência e as ferramentas de IA prontas a usar, a maturidade real das empresas portuguesas e os setores mais bem posicionados para escalar no digital.